Pais repetem princípios à mesa e estranham que a criança não absorva nada. Décadas depois, o que ela guarda não é o discurso. É a tarde em que fez uma bobagem e teve de carregar seis latas d’água da fonte no dia seguinte.
A cena aparece em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, livro de memórias do empresário Alfredo Moreira Filho, e ajuda a explicar por que relatos de infância descrevem melhor do que qualquer manual a passagem de valores entre gerações. O que as famílias mostram na prática aponta noutra direção: atravessa gerações aquilo que a criança viu ser feito, de preferência com algum custo à vista.
A correção que fica tem consequência física
O menino tinha seis anos e olhava da janela o pai e dois peões tentarem laçar uma bezerra no curral. A luta se arrastava. Ele desceu, sentou-se na porteira e, quando o animal chegou perto, pulou por cima na tentativa de dominá-lo. Caiu no barro misturado a esterco, no fim de uma tarde de chuva fina.
A mãe o esperava na porta. Puxou-lhe a orelha, mandou repetir o banho de cuia com água fria e anunciou a tarefa do dia seguinte: seis latas d’água trazidas da fonte. Nenhuma palestra sobre prudência. A formulação da lição, essa veio muito depois, quando Alfredo Moreira escreveu que desafio só se enfrenta com competência para vencê-lo.
O castigo era uma dose extra da rotina de todos
Buscar água na fonte não era invenção punitiva. Era serviço corriqueiro naquela casa, como varrer o terreiro, tratar das galinhas ou selar o burro que levava o pai a Ituberá. A pena consistia em repetir, sozinho e em dobro, o que a família fazia junto todos os dias.
A pesquisadora Barbara Rogoff descreve esse modo de aprender como observar e se meter nas atividades da família e da comunidade, padrão comum em comunidades onde a criança circula entre adultos que trabalham. Quem cresce assim não recebe uma aula sobre responsabilidade. Recebe uma tarefa cujo resultado alguém confere.
Nem todo valor herdado é cópia do que se recebeu
Dona Rosa, mãe do autor, estudou três anos numa escola primária de Igrapiúna e parou ali. O pai dela entendia que estudo era assunto de homem e que mulher precisava mesmo era de um bom casamento. Ela aprendeu a ler, seguiu lendo por conta própria e transformou aquilo que lhe negaram em projeto para os doze filhos.
Um a um, foram enviados para longe, para casas de parentes, internatos e pensões, com o objetivo de estudar. A transmissão, nesse caso, não copiou o que veio antes. Inverteu. É um movimento frequente em histórias de família e costuma passar despercebido quando só se olha para o que os pais diziam.
O que a criança registra é o adulto diante do estranho?
Certa vez apareceu na fazenda uma mulher desconhecida, doente, com um menino de seis anos. Pediu que a família cuidasse dele. Recebeu comida, água e um lugar para dormir. Na madrugada seguinte, foi embora e não voltou.
O menino ficou. Cresceu com os filhos da casa, envelheceu perto deles e segue sendo convidado de honra nas festas da família. Nenhuma criança daquela casa precisou ouvir uma definição de acolhimento. Todas assistiram a uma.
Por que essas histórias interessam a quem não é da família?
Relato de infância não vale pelo pitoresco. Vale porque expõe o mecanismo de transmissão em funcionamento, com data, lugar e consequência: a tarefa que sobrou, o irmão que partiu para estudar, o estranho que ficou. Princípio enunciado no abstrato não deixa marca. Cena com custo, deixa.
Quem escreve as próprias lembranças presta esse serviço sem perceber. Ao registrar o barro do curral e as seis latas d’água, Alfredo Moreira Filho documentou menos uma travessura de menino e mais o método pelo qual sua casa ensinava.
