Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, acompanha de perto essa transição e aponta uma transição preocupante: o Brasil produz mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, e a maior parte desse volume continua sendo enterrada, queimada de forma inadequada ou simplesmente abandonada. Enquanto isso, países europeus e asiáticos já consolidaram um modelo em que o resíduo urbano deixou de ser problema para se tornar insumo energético.
A tecnologia de geração de energia a partir de resíduos, conhecida internacionalmente como Waste-to-Energy, não é nova. Mas o que muda agora é a escala, a eficiência e a viabilidade econômica dessas plantas, especialmente com o avanço das tecnologias de gaseificação e digestão anaeróbica. Como explica Marcello José Abbud, esses processos permitem converter resíduos orgânicos, industriais e até rejeitos de aterro em gás, eletricidade ou biocombustível, com impacto ambiental significativamente menor do que o da disposição convencional.
Por que o Brasil ainda não avançou nessa direção?
A resposta envolve pelo menos três barreiras estruturais. A primeira é regulatória: a legislação brasileira ainda não oferece um marco claro para o licenciamento e a remuneração de plantas Waste-to-Energy em escala municipal. A segunda é econômica: os contratos de concessão de resíduos raramente incluem cláusulas que incentivem a valorização energética, priorizando apenas a destinação final. A terceira é técnica: boa parte dos municípios brasileiros ainda não realiza coleta seletiva de forma eficiente, o que compromete a qualidade do resíduo disponível para processos mais sofisticados.
Marcello José Abbud explica que o resultado é um paradoxo: o Brasil, que possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, desperdiça diariamente um volume enorme de energia potencial em seus próprios aterros.

O papel das usinas de tratamento térmico e biológico
As usinas modernas de tratamento de resíduos operam em duas frentes principais. No tratamento térmico, a incineração controlada com recuperação energética permite gerar eletricidade a partir da queima de resíduos que não têm mais valor reciclável. No tratamento biológico, a compostagem industrial e a biodigestão convertem a fração orgânica em energia e fertilizantes, reduzindo drasticamente o volume enviado a aterros.
Marcello José Abbud e a equipe da Ecodust Ambiental têm se dedicado ao desenvolvimento e à implementação dessas soluções no contexto brasileiro, considerando as especificidades logísticas, regulatórias e socioeconômicas de cada município atendido.
O que muda quando uma cidade adota esse modelo?
A experiência internacional mostra que cidades que implantam plantas de recuperação energética de resíduos conseguem reduzir em até 90% o volume enviado a aterros sanitários, ao mesmo tempo em que geram receita com a venda de energia elétrica e créditos de carbono. Portanto, para municípios com orçamentos limitados, esse modelo pode transformar o setor de limpeza urbana de centro de custo em fonte de receita.
Conforme sinaliza Marcello José Abbud, o caminho não é simples, mas já está pavimentado em dezenas de países. A questão central agora é saber se o Brasil vai aproveitar a janela de oportunidade aberta pela revisão da Política Nacional de Resíduos Sólidos ou vai continuar adiando uma transição que o mundo já começou.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
